sexta-feira, 12 de março de 2010

Na marcha de Vinhedo a Louveira, mulheres destacam o combate ao agronegócio

As duas mil militantes da Marcha Mundial das Mulheres, em caminhada de dez dias entre Campinas e São Paulo,
defendem a reforma agrária e a agricultura familiar.

Um batuque fúnebre abriu nesta quinta-feira (11) o terceiro dia de caminhada da Marcha Mundial das Mulheres pela rodovia Anhanguera. Após terem andado 11 quilômetros entre Campinas e Valinhos na segunda-feira e 14 quilômetros entre Valinhos e Vinhedo ontem, as duas mil militantes que participam da 3ª Ação Internacional venceram com facilidade os oito quilômetros que separam Vinhedo de Louveira. O silêncio inicial, marcado pelo toque ritmado da Fuzarca Feminista, era uma homenagem às mulheres assassinadas no mundo inteiro e um sinal de apoio às feministas do México, que neste mês lançaram uma campanha contra o feminicídio.

Seguindo o revezamento das delegações, hoje foram as caminhantes do Distrito Federal e do Tocantins que iniciaram a Marcha. As palavras de ordem puxadas por elas destacaram o combate à corrupção e a luta pela defesa do Cerrado, da agricultura familiar e da reforma agrária. A principal porta-voz da bancada ruralista no Congresso Nacional foi lembrada por diversas vezes pelas tocantinenses, que cantaram: “Você não quer, nem mesmo eu, ouvir falar da Kátia Abreu”.

Atividades de formação

Os dez painéis de debates simultâneos que aconteceram ontem durante o período de atividades de formação (das 16 às 19h), em Vinhedo, representaram bem a diversidade de temas e de culturas que marca a Marcha Mundial das Mulheres. Os assuntos discutidos foram economia solidária e feminista; saúde da mulher e práticas populares de cuidado; sexualidade, autonomia e liberdade; educação não sexista e não racista; mulheres negras e a luta anti-racista; mulheres indígenas; a mídia contra-hegemônica e a luta feminista; a mercantilização do corpo e da vida das mulheres; prostituição; mulheres, arte e cultura.

Olga Macuxi, de Roraima, compartilhou a experiência das mulheres guerreiras que participaram da luta pela homologação da Raposa Serra do Sol e falou sobre o processo de organização do movimento de mulheres indígenas. “A OMIR [Organização de Mulheres Indígenas de Roraima] iniciou uma campanha de conscientização contra o álcool nas aldeias. A bebida está ligada a maior parte dos casos de violência contra mulheres e prostituição”, contou Olga. Além das indígenas de Roraima, também estão marchando mulheres do povo Sateré-Maué (do Amazonas) e do povo Tupinambá (da Bahia).

Na tenda em que se reuniram as mulheres negras, a militante mineira Maria Teresa destacou a importância do movimento de mulheres incorporar a luta anti-prisional. “Dos 46 mil presidiários de Minas Gerais, 38 mil são negros. Para as presas, os maus tratos são ainda mais intensos. Ao contrário dos homens, elas não têm direito a visita íntima e, se forem lésbicas e se beijarem, passam uma semana na solitária. Se forem pegas em algum contato mais íntimo, o castigo dura três meses”, afirmou ela. “Tenho quatro filhos biológicos e mais quatro adotivos. Um deles começou a roubar. A sociedade nunca me agradeceu pelos sete cidadãos responsáveis que criei, mas estou cansada de escutar ´Só podia ser preta, por isso o filho é ladrão`”, desabafou Maria Teresa.

O caráter de resistência política da cultura popular foi o eixo do debate sobre mulheres, arte e cultura, que contou com a presença de uma convidada especial: a cantora e compositora Ellen Oléria. “Com a feijoada, as mulheres negras conseguiram transformar restos no prato mais famoso da culinária brasileira”, comemorou a cantora. “Com nossa luta, temos muitas conquistas. Ter uma protagonista negra na novela das oito, por exemplo, é algo positivo. , Sem entrar no mérito do conteúdo, pelo menos agora uma menina negra não vai mais perguntar para a mãe se pode ser modelo, porque ela já vai saber que pode, sim”, completou Ellen.

Na tarde de hoje, um grande debate único sobre o trabalho das mulheres e a autonomia econômica reunirá as duas mil caminhantes. A socióloga Helena Hirata vai contribuir com a discussão. Amanhã, às 6h, a Marcha Mundial das Mulheres volta às ruas, rumo a Jundiaí. O destino final é São Paulo, no dia 18 de março.

Mais informações: http://www.sof.org.br/acao2010/

Nenhum comentário:

Postar um comentário